Após queda de 1,49% do varejo em 2025, recuperação moderada neste ano convive com avanço da inadimplência e exige cautela no dimensionamento de frota e equipes
A proximidade da Black Friday, do Natal e das demais datas de maior consumo do último trimestre já movimenta o planejamento das transportadoras paranaenses. Em 2026, porém, a preparação ocorre em um ambiente de sinais distintos sobre o comportamento das vendas. Depois de crescer 7,41% em 2024, o varejo do Paraná recuou 1,49% em 2025, invertendo a trajetória observada no ano anterior.
Neste ano, os primeiros sinais apontam para uma recuperação, ainda moderada. De janeiro a junho de 2026, as vendas do varejo paranaense cresceram 1,53% na comparação com o mesmo período de 2025, com resultado positivo em oito dos 12 segmentos acompanhados pela Fecomércio PR. O desempenho reforça a possibilidade de retomada, mas ainda não permite antecipar a intensidade das vendas no último trimestre.
A volatilidade recente fica ainda mais evidente na comparação do último trimestre. Em 2024, as vendas avançaram 13,62% em outubro, 9,35% em novembro e 3,43% em dezembro, frente aos mesmos meses do ano anterior. Já em 2025, os resultados foram negativos nos três meses, com quedas de 3,35%, 7,17% e 0,34%, respectivamente. Apesar da retração anual de dezembro, o Natal de 2025 movimentou o comércio, as vendas cresceram 8,14% frente a novembro, mostrando como os volumes podem se concentrar em períodos curtos.
Para o Transporte Rodoviário de Cargas, essa oscilação entre períodos de expansão e retração aumenta a dificuldade de prever volumes e dimensionar com antecedência frota, equipes e estrutura para atender aos picos de fim de ano.
Segundo Silvio Kasnodzei, presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas no Estado do Paraná (SETCEPAR), a expectativa é de movimentação, mas com maior cautela. “Nossa leitura é de que teremos uma demanda mais concentrada em janelas curtas e intensas, puxada principalmente pelas datas promocionais e pelo e-commerce, e não necessariamente um volume distribuído ao longo de todo o trimestre. Isso exige das transportadoras capacidade de resposta rápida, mas com uma estrutura mais enxuta”, afirma.
O comportamento observado na última Black Friday reforça essa concentração. Em levantamento da Fecomércio PR e do Sebrae/PR realizado em 2025, 52,6% dos consumidores que enxergavam vantagem na data afirmaram esperar a Black Friday para fazer compras. Outros 14,7% disseram antecipar sempre as compras de Natal na ocasião e 30,7% afirmaram fazer isso dependendo dos descontos oferecidos.
Na avaliação da entidade, o cenário também precisa ser observado à luz da situação financeira das famílias. Segundo pesquisa elaborada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e pela Fecomércio PR, 88% das famílias paranaenses estavam endividadas em agosto de 2026, ante 85,7% no mesmo mês de 2025. A parcela com contas em atraso passou de 12,4% para 18,5% no período. As dívidas comprometem, em média, 32,5% da renda mensal das famílias endividadas no Estado.
Ao mesmo tempo, existem sinais de melhora na disposição para consumir. O Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF), também divulgado pela CNC e pela Fecomércio PR, chegou a 98,9 pontos em agosto, após três meses consecutivos de alta. Apesar da recuperação, o indicador permanece ligeiramente abaixo dos 100 pontos, faixa que separa as zonas de insatisfação e satisfação.
A combinação desses indicadores ajuda a explicar a cautela, existe recuperação nas vendas e melhora da intenção de consumo, mas o avanço da inadimplência ainda pode limitar a capacidade de compra de parte das famílias.
Para as transportadoras, o desafio está em se preparar para uma eventual alta de demanda sem assumir uma estrutura que depois permaneça ociosa. A ampliação temporária das equipes envolve recrutamento, integração, treinamento e encargos, enquanto veículos parados continuam gerando despesas com financiamento, seguro, IPVA, manutenção e depreciação. Investimentos adicionais em armazenagem e estruturas de apoio também podem pesar sobre a operação caso o volume projetado não se confirme.
“Uma frota superdimensionada em novembro pode comprometer o resultado de janeiro e fevereiro, meses tradicionalmente mais fracos. Por isso, o setor tem buscado modelos mais flexíveis, utilizando agregados, parcerias entre transportadoras e contratos de curta duração, em vez de assumir custos fixos sem segurança sobre o volume que será movimentado”, explica Kasnodzei.
Nesse processo, a troca de informações entre transportadoras e clientes ganha ainda mais importância. Para o SETCEPAR, a projeção de volume apresentada pelos embarcadores é hoje um dos principais indicadores utilizados pelas empresas para decidir se haverá necessidade de ampliar frota e equipes para os períodos de maior movimentação. Quanto mais cedo essas previsões são compartilhadas, maior é a capacidade de dimensionar as operações e reduzir riscos para toda a cadeia.
A previsibilidade também ganha importância diante de uma característica cada vez mais presente no varejo, campanhas promocionais e compras digitais podem concentrar grandes volumes em poucos dias, exigindo capacidade adicional justamente quando existe menor margem para erros de planejamento.
Kasnodzei ressalta que a incerteza da demanda representa um desafio diferente dos custos tradicionalmente acompanhados pelo setor. “Custos como diesel, juros e manutenção podem ser medidos, projetados e, dentro de determinados limites, considerados nas negociações. A demanda incerta não se controla. Uma empresa consegue operar com custos elevados se tiver volume firme e previsível. O que realmente pressiona a margem é combinar custos altos com capacidade ociosa. Hoje, essa incerteza é uma das variáveis que mais influenciam a decisão de investir ou não na operação”, conclui.
Fonte: SETCEPAR / Foto: Divulgação
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